sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Brett Halsey: Entre Tiros & Monstros!





Brett Halsey nasceu Charles Oliver Hand, em junho de 1933 nos estados Unidos. Fez filmes de guerra, de rebeldes juvenis, dramas, dramas históricos, séries de TV, espionagem, etc. Ficou conhecido por participar de alguns clássicos "B" de terror/ficção, e como "cowboy" no Spaghetti Western. Agora uma entrevista reveladora com este verdadeiro herói...












- Você era um ator americano reconhecido e estável quando se mudou para a Itália. O que o levou a isto?


- Bem, eu era um ator de filmes-B. Eu fiz alguns trabalhos de gênero como "Return of the Fly” e “Twice Told Tales”, e um monte de coisas que eu tenho muito orgulho...  




   "O Monstro de Mil Olhos"  (1959) de Edward Bernds






                             Brett  como o "mosquinha" do filme...

 Mas estes filmes não eram respeitados na época.  Hoje em dia, as pessoas fazem retrospectivas e eles são considerados clássicos, o que é ótimo! Entretanto, eram filmes de horror, e não abriam portas para se participar de grandes produções classe A.  Portanto, se você era um ator-B ou um diretor-B, você estava a parte de outros filmes. Na Itália entretanto, não havia isto, eles tinham muita procura por atores do meu tipo, e eu assinei com uma empresa produtora.




     "Nos Domínios do Terror" (1963) de Sidney Salkow






- Você trabalhou com alguns dos melhores da época! Riccardo Freda , em” Il Magnifico Avventuriero” (O Magnífico Aventureiro, 1963), e é claro com Mario Bava – primeiro em seu clássico spaghetti-western “Roy Colt and Winchester Jack” (1970 ), gostaria que você falasse a respeito…




- Oh! Eu sempre gosto de falar sobre Mario Bava. Como eu disse, eu estava sob contrato de uma companhia produtora italiana, e o Western era o sucesso da época. Eu fiz “Wrath of God”, ”Today We Kill! Tomorrow We Die!” e, é claro, “Roy Colt”. Eu conheci lugares lindos na Espanha e Itália fazendo estes filmes.  Mas quando veio Bava, eu simplesmente fui escalado  pela produtora para ser o ator principal do filme. Eu não precisei fazer teste, entrevista, nada! (risos). Foi simples assim: “Este cara aí é Bava, um grande diretor, e você é o astro de seu próximo filme…”



- Como você se deu com Bava?




                         Brett com o "Maestro" Bava...


 -Oh cara! Nos demos bem imediatamente. Ele era um homem amável e muito bom para dirigir atores.  Alguns diretores não sabem como falar com os atores.  Eles não querem interagir conosco – e eu tive muitas experiências desta até hoje (risos). Por seis anos eu dirigi o curso de cinema da Universidade da Costa Rica, então, eu aprendi muito sobre como conversar com a equipe – e que de todas as formas, diretores e atores são similares, porque obviamente ambos são pessoas criativas, mas de formas diferentes. Eu nunca vi Bava passando por cima de um ator. Ele sabia como nos manipular (risos).


- O que você acha do fenômeno Spaghetti Western? Você é fã destes filmes em geral?


- Eu sou muito fã, e realmente é um fenômeno como você diz! Um dos Westerns que fiz antes de Roy Colt se tornou um grande sucesso: “Today We Kill, Tomorrow We Die!”.




       "Hoje Eu...Amanhã Você" (1968) de Tonino Cervi






 Ele foi muito bem recebido na Itália e nos estados Unidos. E aconteceu um fato, quando o filme foi lançado em Londres, havia posters dele no metrô e por toda a cidade. Meu irmão estava visitando a Inglaterra na época, e tirou fotos para mim – ele disse que o filme foi um hit na Grã-Bretanha! Talvez por isto eu tenha sido escalado para estrelar Roy Colt, mas não tenho certeza…





- O que você acha que fez do Spaghetti Western um gênero de sucesso popular?







               Brett em recente convenção dedicada ao Spaghetti-Western

- Eu nunca me surpreendi com a popularidade do Spaghetti. Os italianos tem o senso de drama entranhado neles. Nossos Westerns na America eram muito limpos- você sabe? Roy Rogers tocando seu violão e coisas assim! Os italianos levaram tudo a outro nível – especialmente com a violência.

- Você pode falar sobre suas lembranças de fazer Roy Colt com Bava?




- É difícil eu me lembrar do filme, para ser honesto. Foi à muito tempo atrás (risos).  Eu trabalhava com um ator chamado Charles Sothwood, e você sabe qual era o nome verdadeiro dele? Eu suspeito que não! (risos). Eu não conhecia ele, e não rolou nenhuma animosidade entre nós, mas não nos demos bem, não rolou uma química entre nós. A atriz, eu realmente gostei – Marilú Tolo,ela era uma mulher maravilhosa. Era um velho filme engraçado, sobre estes dois caras competindo um com o outro para ver quem é mais macho. Eu acredito que na realidade eu era muito maior e mais forte que Charles, então talvez isto tenha causado a fricção entre nós (risos). Eu não sei, pelo que me lembro ele era um bom ator, mas não ouvi falar dele depois de Roy Colt e que eu saiba ele não teve uma carreira, o que é uma pena.

- Bava adicionou muito de comédia ao gênero com este filme…

-Yeah! Bava queria fazer uma comédia. Ele dizia que estava fazendo um Western que também era para rir – isto tudo muito antes de “Banzé no Oeste” e outros. Eu acho que não dá para ir muito longe com isto, pelo menos na Itália. Com o ator, eu tentei manter a imagem de macho. Mas eu acho que funcionou muito bem!

- Você prestou a atenção ao famoso uso das cores de Bava?

- Eu realmente não pensei nisto naquela época. Ele era um artista que pintava seus filmes com a câmera. Ele tinha o toque mágico de saber achar o ângulo certo para capturar tudo que queria mostrar. Se você estuda arte…você sabe…os velhos mestres tinham este mesmo talento em suas obras. Eu não consigo achar as palavras certas, mas, estou contente que você comentou isto, porque as composições visuais de Bava eram incríveis! Elas ainda me impressionam muito quando consigo vê-las em uma tela de cinema!



- E, então, você trabalhou em “Four Times That Night” (Quatro Vezes Aquela Noite, 1972) …




-Certo, o segundo filme que fizemos juntos foi “Four Times That Night”. Um dos produtores  deste filme – eu não vou dizer o nome dele- era um ladrão, ele desapareceu com todo o dinheiro do orçamento. Mas eu sei que o outro produtor, Dick Randall, tentou sozinho conseguir o dinheiro para finalizar o filme, e ele trabalhou muito, muito pesado. Nós não podíamos fazer tudo o que Bava queria, por causa desta crise, mas fizemos tudo o que podíamos  para compensar. Bava sabia muito bem como fazer um filme em qualquer condição, e ele nunca iria abandonar um projeto. Quando o filme ficou pronto e eu o assisti, fiquei  pensando, que não se nota todos os problemas que tivemos por trás das câmeras e o orçamento que foi cortado.


- Dick Randall fez jus a sua reputação – ele produziu muitos filmes baratos europeus como “Supersonic Man”(1979), "Crocodilo Assassino" (1979),"Emmanuelle à Cannes” (1980), “Pieces” (1982) e muitos outros...



-Claro, Dick Randall tinha este lado muito Trash (risos). Ele era o produtor americano de parte do filme, mas acabou tendo que trabalhar para poder salva-lo. Ele foi conseguindo dinheiro para trabalharmos na base de  um dia de cada vez, procurando o orçamento para o dia seguinte. Nós não perdemos nenhum tempo, mas perdemos a chance de vermos Bava fazer a obra como queria e no auge de seu talento.  Por menor que fosse o orçamento conseguido,  Bava conseguia achar um jeito de colocar na tela suas ideias. E o filme acabou sendo um grande sucesso na Itália, você sabe, né?


- E como foi você ficar com a mulher mais linda do elenco?




- Bem, eu preciso ser cuidadoso com o que vou falar aqui…Havia muitas mulheres bonitas no elenco. A atriz principal era muito linda –Daniela Giordano-  Ela acabou inventado uma série de histórias mais tarde – ela disse que em uma cena ela tinha arrancado um dente postiço meu. Isto é absurdo, já que nunca tive dentes postiços! (risos). Eu não apreciei ela como atriz, mas ele se esforçou bastante. Todos nós nos esforçamos. Me lembro de uma cena que fizemos juntos, uma cena de banho em um chuveiro. Supostamente para fazermos amor debaixo do jato de água quente.



 O problema é que não conseguiam regular a temperatura da água, então as vezes estava congelando de fria e em outras nós estávamos cozinhando! Se você observar a cena, vai ver que estávamos em agonia! (risos). Daniela Giordano foi uma verdadeira guerreira durante esta cena. Havia também uma atriz francesa, Pasquale Petit, que era ótima. Ela era muito doce…




- Comédias sensuais não era realmente o forte de Mario Bava. Você não teve a impressão que “Four Times That Night” foi apenas um trabalho-para-pagar-as-contas  para ele?


- Ah, Não! Não mesmo! Ele se dedicava totalmente a qualquer trabalho que aceitava fazer. Ele nunca via alguma coisa como sendo “trabalho secundário”. Ele fazia estes filmes com a mesma responsabilidade que teria se estivesse fazendo um blockbuster de milhões de dólares.

-Você retornou a América no final dos anos 80, e permaneceu prolífico e bastante ocupado na TV, e até teve uma ponta em “O Poderoso Chefão III” (1990). Apesar disto, você ocasionalmente voltava a por seus pés na Itália… por exemplo, alguns filmes que fez  com o falecido mestre Lucio Fulci como "Il Miele del Diavolo" (1986),  “Touch of Death” ( Quando Alice Ruppe lo Specchio, 1988) ou “Demonia” (1990). O que você acha do jeito deles fazerem as coisas por lá?








- Infelizmente na época destes filme de Fulci, a indústria de cinema na Itália, já estava morrendo. Eu acho que Fulci era brilhante, um grande artista e um homem  inteligente.  O último filme que fiz por lá, se não me engano, foi um giallo – por Luigi Cozzi (The Black Cat/Il Gatto Nero/Filmagem Macabra, 1989).





 Eu tinha certeza quando estava fazendo estes filmes, de que era o final de uma época que foi maravilhosa. Simplesmente não havia mais dinheiro circulando para as produções.
Para ser honesto, o jeito de se filmar na Itália era muitas vezes bastante difícil. Eles não tem o senso de tempo que temos na América. Você poderia ir trabalhar pela manhã, tomava um café, fazia duas ou três tomadas, então pelas 13 horas, alguém olhava o relógio e dizia: "Uau! estamos atrasados!" , então você tinha que correr e correr...
Eu preciso deixar claro no entanto, de que Mario Bava nunca perdia tempo. Ele sabia o que procurava mostrar na tela, e sabia como organizar tudo. Ele não era do tipo de perder tempo e depois dizer "Okay, vamos, vamos, vamos".

-Então Brett, mais algumas palavras sobre Mario Bava para encerrar?

- Eu queria dizer que Mario Bava foi um dos muitos cineastas que não foram reconhecidos na América no seu tempo. Hoje em dia, diretores consagrados como Martin Scorsese e Quentin Tarantino elogiam seu talento e admitem terem se inspirado nele.  O problema é ele ter sido classificado como um cineasta B, e grandes produtores não terem investido nele. Eu acho que este foi o único problema. Como eu disse no começo da entrevista, se você fazia filmes B, você ficava acorrentado a eles..." 


Entrevista para Calum Waddell (The Dark Side Magazine # 171, Dez 2015). Tradução, adaptação e informações complementares por Titio Coffin Souza.




                                       Brett na série de sci-fi "Buck Rogers"



               p.s. Brett Halsey continua ativo no cinema, TV,vídeo & em convenções de gêneros...