quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Dario Argento: Entrevista



                 DARIO ARGENTO-ENTREVISTA

     Por Nicanor Loreti (Publicada no livro "Cult People")



-Trabalhaste com Mario Bava, teu mentor, em “Inferno”. Como foi esta colaboração?


-Argento: Mario foi o responsável pelos efeitos especiais naquele filme, e foi um verdadeiro sonho feito realidade e uma maravilha trabalhar com ele naquele momento. Além disto, seu filho Lamberto Bava, hoje também diretor, era meu assistente. Realmente nos demos muito bem e ele adorou fazer parte do projeto. Bava foi uma grande influência em minha carreira.


- Antes de ficar conhecido como diretor, escrevestes o roteiro de “Era Uma Vez no Oeste” ( C’Era uma Volta Il West, 1968) , dirigido por Sergio Leone. Como foi esta experiência?





- Foi incrível, foi algo muito importante para mim, porque trabalhei  no roteiro junto com Leone e Bernardo Bertolucci. Algo que nunca esquecerei. A história foi escrita originalmente por Leone, e era algo realmente inovador: foi a primeira vez que se colocou uma mulher (Claudia Cardinale) como personagem principal e heroína de um filme assim.


-Falando nisto, em muitos dos seus filmes os heróis são as mulheres. Por exemplo, “Suspiria”,  “Phenomena”, “Síndrome de Stendhal”...


- É verdade. Sem dúvida, creio que é apenas uma coincidência. Dirigi tantos filmes, que em muitos deles simplesmente aconteceu isto (risos). Em parte, creio que se deve ao interesse que tenho pelas mulheres em geral.


-Como foi trabalhar com Jennifer Connely em “Phenomena” ?




- Ela era muito jovem, tinha só 13 anos, mas mesmo assim foi uma grande colaboração. A conheci em New York, porque ela teve um papel em “Era Uma Vez no Oeste”. Sergio Leone me contou sobre ela e me apresentou, porque acreditava que ela era uma atriz muito interessante. Quando estava para filmar “Phenomena” pensei nela e voltei a New York para conversarmos. Também falei com sua mãe e sua família,  e ela finalmente aceitou o papel. Era muito bonita e uma grande atriz também.


-Qual sua relação com os atores? Geralmente não voltas a utilizar os mesmos em teus filmes, exceto talvez, a tua filha Asia.




- É verdade. É porque diferentes filmes necessitam de diferentes intérpretes (risos). Cada personagem tem sua personalidade e características, e creio que é melhor quando gente diferente de mete na pele de personagens específicos. Sobre Asia, filmamos em diferentes etapas de sua vida, portanto era como se fosse uma pessoa diferente em cada filme.



- Como foi a escolha de Jessica Harper para o papel de Suzy Banyon em “Suspiria”?



- Eu a tinha visto no filme “O Fantasma do Paraíso” (The Phantom of the Paradise) de Brian De Palma. Realmente se surpreendi muito com seu carisma, sua forma de atuar e, sobretudo, com seu rosto. Era realmente perfeita para mim. Viajei até Los Angeles para falar com ela, e ela se encantou com a ideia de Suspiria.  Então viajamos para a Europa, mais especificamente para a Itália e Alemanha, aonde o filme foi feito. Foi uma experiência maravilhosa.


-É verdade que colocavas a trilha sonora de Suspiria para rodar o tempo todo durante as gravações do filme, para colocar os atores no clima?



- Sim, eu fazia. Penso que a música está diretamente relacionada com a atmosfera de um filme. E neste caso, a música já estava pronta antes das filmagens, porque eu havia conversado e encomendado aos músicos do The Goblin (que também fizeram a música de Profondo Rosso entre outras). Ajudou ter a música pronta para que os atores escutassem, porque eles possuem seu ritmo interno, e desta forma eu podia ajudá-los a se concentrarem através da melodia.


- Que tipo de relação tens com os diretores de fotografia em cada filme? Por exemplo, é bastante clara a influência de Luciano Tovoli em Suspiria. 



- Creio que é muito importante, para não dizer crucial, ter uma boa relação de trabalho com o diretor de fotografia. É muito valioso ter um bom diálogo, que haja comunicação, porque existem certas coisas que temos que estar totalmente de acordo. Temos que ter claro como vamos querer que o filme seja visto, sobretudo as cores e quais queremos que predominem e por que...


-Que podes contar de teu trabalho na série de TV “Masters of Horror”, principalmente do seu primeiro episódio, “Jenifer”?




- Foi uma experiência muito grata trabalhar com amigos que conheço desde sempre. Tive uma grande liberdade criativa, e incentivo também. Foi muito interessante filmar em Vancouver e fazer a pós produção em Los Angeles. Trata-se de uma versão de uma história em quadrinhos dos anos 70.  Me ofereceram diversas ideias e roteiros para adaptar...uma destas era este quadrinho desenhado por Berni Wrightson.

Pudestes escolher os atores que querias, ou alguns vieram impostos pelos produtores?



- Pude escolher quem eu quisesse, desde que fosse americano. Senti-me muito bem filmando lá...Ficou realmente bom, é um filme bastante chocante e forte, devido a natureza da história original.


-Ficou bastante diferente de seus filmes anteriores, não é?


- Sim, muito, muito diferente. É uma história muito estranha, com muitos elementos dos filmes clássicos dos anos 70, que é justamente a época em que está ambientada a história em quadrinhos. Existem alguns elementos fantásticos, mas atados a realidade.


- Já filmaste na Europa e nos estados Unidos. Existem muitas diferenças em trabalhar com equipes de ambos os continentes?


-Não, nada. Os filmes são filmes, sabe? (risos). As câmeras, os atores, os roteiros,...tudo isto é que faz um filme. Com a tecnologia que temos hoje em dia quase não existe diferença. A única é o idioma que usamos para nos comunicar...